14 de outubro de 2026

O celular saiu da escola. O que precisa entrar no lugar?

Uma coordenadora recebe uma boa notícia: depois da restrição dos celulares, há menos interrupções por notificações. Ao mesmo tempo, os professores relatam conflitos no recreio, alunos que não sabem como se aproximar de um grupo e adolescentes que chegam sonolentos. A mudança resolveu uma parte do problema. Outras ficaram mais visíveis.

Essa é uma conversa importante para a escola brasileira. A Lei nº 15.100, de janeiro de 2025, restringiu o uso de aparelhos eletrônicos pessoais durante aulas, recreios e intervalos da educação básica, com exceções previstas para finalidades pedagógicas, acessibilidade, inclusão, saúde e situações específicas. A mesma lei determina estratégias relacionadas à saúde mental, formação dos profissionais e espaços de escuta. A legislação vai além de guardar o aparelho. [1]

Uma pesquisa que ajuda a fazer perguntas melhores

Publicado em 2025, o estudo SMART Schools comparou 1.227 adolescentes de 12 a 15 anos em 30 escolas inglesas. Nas instituições com políticas mais restritivas, o uso de celular e redes sociais era menor durante a permanência na escola. Os pesquisadores, porém, não encontraram diferença no bem-estar mental nem no tempo de uso quando consideraram dias de semana e fins de semana. [2]

O estudo é observacional e transversal: compara grupos em um momento, sem sortear políticas nem acompanhar a mudança antes e depois. Portanto, não demonstra que restrições sejam inúteis, tampouco que causem melhoria ou piora. Seu valor está em mostrar por que uma política escolar isolada pode não acompanhar toda a experiência digital de um adolescente.

A aplicação ao Brasil também exige cuidado. Temos outra organização escolar, outra legislação e condições sociais diferentes. O que podemos aproveitar é a pergunta: o aluno passou a usar menos o celular ao longo do dia ou apenas deslocou o uso para outro horário?

O recreio também é um contexto de aprendizagem

Imagine um aluno de 13 anos que passava o intervalo jogando. Ao deixar o aparelho guardado, ele começa a seguir um grupo e interrompe repetidamente as conversas. Quando os colegas o rejeitam, faz piadas ofensivas. A escola registra “problema de comportamento”.

Uma observação mais útil seria acompanhar a sequência. Ele consegue entrar em uma conversa? Percebe quando os colegas não querem brincar? Há um grupo em que participa melhor? O objetivo não é desculpar a ofensa. É interrompê-la e identificar o que precisa ser ensinado para que a próxima tentativa de interação tenha outro resultado.

Uma professora pode ensaiar com ele uma entrada simples: “Vocês estão jogando o quê? Posso entrar na próxima?” Pode também organizar atividades acessíveis a diferentes alunos, observar exclusões e disponibilizar um adulto de referência. Não seria preciso transformar todos os intervalos em atividades dirigidas. Seria preciso garantir que a retirada do aparelho não deixasse alguns estudantes sem uma forma possível de participar.

Na reunião com a família, a pergunta “ele está respeitando a proibição?” pode vir acompanhada de outras: a que horas dorme? Quanto tempo fica conectado depois da escola? O que faz quando se sente excluído? Quem consegue ajudá-lo a organizar essa parte do dia?

Dois ambientes precisam conversar

Pense agora em uma aluna que passa a chegar atrasada. Ela guarda o telefone na escola, mas fica até tarde respondendo mensagens, porque teme perder assuntos do grupo. Retirar o celular na sala não resolve essa dinâmica de pertencimento e sono.

A orientação parental pode ajudar os adultos a construir um plano que envolva horário, local de carregamento, participação da adolescente e proteção do descanso. Também pode ajudar a escola a discutir cidadania digital sem reduzir o encontro com as famílias a uma palestra sobre perigos.

Para avaliar a política, acompanhe indicadores diferentes: interrupções na aula, participação no recreio, conflitos, relatos dos alunos, uso fora da escola e barreiras para a implementação. Uma escola pode melhorar a atenção durante a aula sem produzir, no mesmo período, uma mudança mensurável em saúde mental. São resultados distintos e precisam ser tratados como tal.

Há ainda as exceções: um recurso de comunicação ou de monitoramento de saúde não pode ser tratado como uma distração recreativa. A implementação precisa preservar acesso e inclusão.

O trabalho do profissional aparece nessas decisões concretas. A formação de base oferece recursos para compreender a criança; a educação parental amplia a capacidade de coordenar escola, família e cotidiano. Se você deseja aprofundar essa atuação, conheça a Certificação em Educação Parental e Neurociência do Instituto Eduque Bem.

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Instituto Eduque Bem — Michelle Bottrel e Sarah Mendonça

Fontes

[1] Brasil. Lei nº 15.100/2025.

[2] Goodyear VA et al. SMART Schools. The Lancet Regional Health – Europe, 2025. Estudo transversal observacional.