14 de outubro de 2026

Antes de chamar o adolescente de desmotivado pergunte como ele está dormindo

A professora descreve um aluno de 14 anos que não começa as atividades, parece irritado e esquece o material. Em casa, a família diz que ele “só quer ficar deitado”. Quando alguém pergunta pelo sono, a resposta vem rapidamente: “Ele vai para o quarto às dez.”

Ir para o quarto não é o mesmo que dormir. Pode haver tarefa atrasada, mensagens, preocupação, dificuldade para adormecer ou despertares. Se o profissional não pergunta, essa parte da rotina permanece invisível.

Um estudo publicado em 2026 trouxe um alerta

Uma pesquisa na revista Pediatrics analisou respostas de 401.160 adolescentes dos Estados Unidos, coletadas entre 1991 e 2023. O período de 2021 a 2023 apresentou as menores proporções de estudantes que relatavam dormir pelo menos sete horas, em todas as idades avaliadas. Entre os jovens de 18 e 19 anos, essa proporção foi de 22,3%. [1]

O dado se refere a adolescentes norte-americanos e a uma medida autorrelatada. Não é uma estimativa brasileira nem demonstra que o celular tenha causado a queda. Há outra distinção essencial: sete horas era um indicador analisado; a recomendação habitualmente endossada para adolescentes é de oito a dez horas por 24 horas. [2]

O achado convida profissionais e escolas a tratar o sono como parte da investigação de aprendizagem e comportamento, em vez de deixá-lo apenas para quando aparece uma queixa de insônia.

O comportamento da manhã depende de uma noite que ninguém viu

Quando o adolescente passa boa parte do dia tentando funcionar cansado, a exigência de planejar, sustentar atenção e tolerar contrariedades pode se tornar mais difícil. Isso não significa que o sono explique todo sintoma ou que substitua a investigação de TDAH, ansiedade e outras condições. Significa que uma formulação fica incompleta se ignora uma restrição importante do cotidiano.

No exemplo do aluno, vale reconstruir um dia real: horário de saída da escola, deslocamento, atividades, jantar, tarefa, uso digital, entrada na cama, início estimado do sono e horário de acordar. A conversa com o próprio adolescente é indispensável. Ele pode contar algo que os pais não sabem: “Só começo o trabalho quando a casa fica silenciosa.”

Agora a intervenção muda. Antes de acrescentar um castigo por tarefas incompletas, será preciso discutir o lugar da tarefa no dia e as condições para realizá-la.

Um plano possível para a família

A família pode acompanhar por uma semana horários e dificuldades, sem transformar o registro em vigilância punitiva. Depois escolhe uma mudança viável: organizar a tarefa antes, rever uma atividade que termina tarde, combinar onde os aparelhos ficarão ou construir uma sequência de desaceleração que o adolescente aceite experimentar.

É útil perguntar o que impede a mudança. “Durma mais cedo” é uma orientação pouco executável se a rotina exige que ele chegue tarde, se há barulho intenso em casa ou se está com uma preocupação persistente. O profissional precisa conhecer esses obstáculos.

No retorno, interessa observar mais que o horário no relógio: como está a sonolência, o começo das tarefas, a irritabilidade e a percepção do adolescente? Mudanças simultâneas podem dificultar identificar o que ajudou. Um ajuste por vez, quando possível, torna a conversa mais clara.

Ronco importante, pausas respiratórias, sonolência intensa, insônia persistente ou sofrimento emocional exigem avaliação de saúde. Não cabe recomendar suplementos ou medicação apenas com base em uma rotina descrita.

O que a escola pode fazer com essa informação

Uma segunda situação: a aluna chega sonolenta porque enfrenta um deslocamento longo e precisa ajudar em casa à noite. A escola pode discutir prazos, carga de tarefas e barreiras reais, além de registrar sua participação. Punir o cansaço como falta de interesse tende a esconder a necessidade de apoio.

Isso não retira a responsabilidade escolar da adolescente. Ajuda a criar condições para que ela a exerça. O acompanhamento pode combinar uma prioridade acadêmica com um ajuste de rotina e uma revisão conjunta em data definida.

Para profissionais, o valor dessa abordagem está na qualidade da hipótese: diante de um comportamento, investigamos o desenvolvimento, as exigências e as condições de execução.

O livro Disciplina Consciente, Neurociência e Regulação Emocional na Infância e Adolescência reúne fundamentos e diretrizes práticas para essa leitura integrada de criança, adolescente, família e ambiente. É uma referência para organizar perguntas e orientar intervenções para além da queixa inicial.

Conheça o livro

Instituto Eduque Bem — Michelle Bottrel e Sarah Mendonça

Fontes

[1] Widome R et al. Sleep Duration Among US Adolescents, 1991–2023. Pediatrics, 2026. Análise de séries de inquéritos populacionais.

[2] American Academy of Pediatrics. Study: Teen sleep at its lowest in three decades, 12/05/2026.